terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nomes que damos às emoções dependem de vivências da infância



O nome que damos ao que sentimos corresponde de fato à emoção vivida? 

"... desde que nascemos e passamos a interagir com outros seres humanos, passamos a ser educados sobre o que estamos sentindo..."
É possível dizer que as emoções sempre estiveram presentes em nós desde nosso nascimento?

Ou então, a partir de quando passamos a ter emoções ou sentimentos? Essa é uma reflexão interessante de se fazer.

Como sabemos se estamos tristes, com raiva, com medo ou ainda alegres?

No que você se baseia para nomear aquilo que sente em um determinado momento?

O que utilizamos como parâmetro são nossas reações físicas e fisiológicas.

É através de algumas mudanças no nosso organismo (sinais – percebidos ou medidos por outros - e sintomas – perceptíveis somente para a própria pessoa) que nos baseamos para dizer o que estamos sentindo.

Desse modo, as emoções, sentimentos e humores, estão diretamente ligadas à propriocepção, ou seja, a capacidade que cada um tem de perceber seu próprio corpo.

Se eu me atento mais às minhas reações corporais, tanto mais eu perceberei qualquer oscilação, podendo ou não atribuir essas alterações a uma mudança de humor ou ainda a alguma emoção.

O que determina então se eu atribuirei ou não alguma mudança em meu organismo a uma emoção, sentimento ou humor?

Isso dependerá muito da educação que tive na minha infância. Você pode-se perguntar o que ou como a educação influencia as emoções ou humor de uma pessoa. O que ocorre é que desde que nascemos e passamos a interagir com outros seres humanos, passamos a ser educados sobre o que estamos sentindo.

Quando o bebê abre a boca e mostra as gengivas, esboçando um sorriso, a mãe pode-lhe dizer: “Você está feliz porque viu a mamãe!” ou ainda, quando o bebê está no berço e chora, a mãe pode pegá-lo no colo e dizer: “Você estava triste por que mamãe te deixou aqui sozinho?”

Dessa maneira, passamos desde cedo a ter uma instrução sobre o que estamos sentindo com base nos feedbacks recebidos de quem está à nossa volta. Dessa forma, associamos o nome que outros dão a algumas reações que temos, ao que percebemos sentir naquele momento. Aos poucos nos apropriamos dessas alterações que percebemos em nosso organismo e sozinhos passamos a nomear um conjunto de reações físicas e fisiológicas, fornecendo-lhes um rótulo: alegria, ansiedade, irritação, mau humor, amor, etc.
Reações corporais e emoções 

Dentro desse processo há também uma percepção das diferentes nuances das mudanças que percebemos em nosso corpo, acarretando assim em nomes diferentes para diversas reações. Por exemplo: podemos dizer que ficamos com raiva em um determinado momento, sendo isso mais sutil do que se disséssemos (ou reconhecêssemos) que sentimos ódio.

Desse modo o reconhecimento e nomeação das emoções e estados de humor depende muitíssimo do estímulo que tivemos em nossa infância. Cada família e/ou cultura dá mais ou menos foco (atenção) para as emoções, bem como às emoções positivas ou negativas. Há famílias mais ansiosas, famílias mais alegres e portanto dão mais atenção a esses sentimentos.

Não é difícil perceber diferenças no modo como as pessoas vivenciam suas emoções nas diferentes famílias e culturas.

Leia este texto também em Via Estelar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De volta para o passado


Por Contardo Calligaris

Os remorsos são injustos: esquecemos as razões que nos fizeram decidir nas circunstâncias passadas

ADORARIA QUE fosse possível viajar no tempo e voltar para épocas anteriores de minha vida.

Ingenuamente, imagino que, em vários momentos do passado, eu teria me beneficiado de algo que sei só agora. Quem melhor do que eu aos 50 ou 60 anos para aconselhar uma versão mais jovem de mim, a de dez, 20, 30 anos atrás?

Hoje, enfim, meço as consequências de algumas escolhas antigas. Sei (ou imagino) que teria sido melhor me separar logo daquela pessoa e nunca me afastar de outra, que era insubstituível e que eu perdi; sei (ou imagino) que poderia ter evitado riscos inúteis e me exposto a outros dos quais fugi; sei (ou imagino) que deveria ter insistido quando desisti e desistido quando insisti. E, para quem pode viajar no tempo, nunca é tarde para salvar Inês.

Voltar ao passado para nos dar conselhos em momentos cruciais parece ser uma maneira racional de endireitar nossa vida, a única que leve em conta as consequências confirmadas de nossos atos.

Mas um ditado italiano ("del senno di poi son piene le fosse" -da sabedoria do depois as valas estão cheias) sugere que esse saber das consequências, além de chegar atrasado, talvez seja inútil.

Concordo: as escolhas da gente são quase sempre as melhores, se não as únicas possíveis na hora em que tivemos que decidir. E os remorsos são quase sempre fajutos: quando reavaliamos e censuramos nossas decisões passadas à luz de suas consequências presentes, estamos esquecendo as razões que nos fizeram decidir naquele momento e naquelas circunstâncias. Mesmo assim, a vontade é grande de voltar atrás e alterar o passado.

Quando era mais jovem, depois de qualquer crise (embate, briga, acidente), revivia mil vezes o que acabava de acontecer, corrigindo ou aperfeiçoando imaginariamente minha reação (o que eu "deveria ter feito").

Hoje, mais velho, quando volto a lugares do passado, sempre os encontro assombrados, como se minha história ainda estivesse por lá, suspensa, na espera de uma solução alternativa à que se realizou na época.

Me dei conta disso quando, pela primeira vez, morreu alguém que tinha sido minha companheira. O luto foi violento, igual ao que seria se minha história com ela nunca tivesse acabado.

Como podia ser? Se passaram tantos anos sem eu pensar nela... Por que esta dor agora? Era como se, com a morte dela, acabassem as chances de dar àquela história um desfecho outro, como se só com a morte dela o passado se tornasse realmente passado.

Seja como for, por ser um fã das viagens no tempo, não podia perder "Looper - Assassinos do Futuro", de Rian Johnson, que estreou na sexta passada. No filme, daqui a 30 anos, as viagens no tempo serão possíveis e proibidas. A máfia instalará seus assassinos, os "loopers", no passado (ou seja, numa época mais permissiva); e para esses assassinos ela despachará as pessoas que deseja eliminar, para que sejam mortas.

Um dia, um assassino descobre que o condenado, que ele recebe do futuro, é a versão mais velha dele mesmo. Será que o jovem "looper" vai querer poupar sua própria vida? Não é óbvio: afinal, matar a nós mesmos daqui a 30 anos é parecido com fumar e comer toucinho.

Esse cara, 30 anos mais velho do que eu, será que ainda sou eu? E será que alguém aos 20 ou aos 30 escutaria o que sua versão de 60 anos tentasse lhe dizer? Ou será que, para mim aos 20, eu seria hoje apenas mais um velho chato qualquer? Questão antiga: fora nossa identidade jurídica, que permanece igual, será que, ao longo da vida, somos a mesma pessoa?

Nesse fim de semana, no festival de cinema do Rio, assisti a "Camille Outra Vez", de Noémie Lvovsky, título original "Camille Redouble" (não sei quando o filme será distribuído no Brasil, mas conto com o cinema Reserva Cultural, que, em São Paulo, para quem aprecia cinema francês, é uma dádiva).

No filme, Eric e Camille ficaram juntos a vida toda. Mas Eric acaba de deixar Camille por uma mulher mais jovem (e talvez menos beberrona). No Réveillon, Camille desmaia e acorda aos 16 anos. Ela reencontra seus pais, as amigas da escola e, sobretudo, Eric, pois é bem naquela época que eles se encontraram.

Claro, Camille quer mudar o curso de sua vida (não namorar Eric) para evitar a dor futura da separação. Mas o fato é que muitos amores são como a vida: eles valem a dor que seu desfecho triste nos dará eventualmente um dia.

Fonte: Folha de São Paulo, 04/10/2012.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Na TCC o sonho é visto como se fosse real


"Como o sonhador mantém suas crenças dormindo ou acordado, será possível identificar possíveis distorções cognitivas e desafiá-las, buscando uma flexibilização das mesmas"

O trabalho com os sonhos em psicologia clínica é bem conhecido.

Muito se deve ao trabalho de Freud que focou a psicoterapia em estudar e compreender o inconsciente e para isso utilizou dentre outras técnicas a interpretação dos sonhos.

Na TCC o trabalho com sonhos não é muito recorrente e por isso mesmo pouco conhecido. Não se utiliza interpretações simbólicas (por exemplo: sonhar com água pode significar entrar em contato com suas emoções), mas sim, o Modelo Cognitivo. Trocando em miúdos, assim como acontece no dia a dia, os sonhos são vistos como situações em relação às quais a pessoa tem suas percepções, emoções e comportamentos. Diante de uma situação X a pessoa tem certa percepção, em conseqüência dessa, uma emoção resulta em um dado comportamento. Desse modo o sonho é tratado como se fosse uma situação real que o paciente experienciou.

No trabalho com sonhos em uma sessão de TCC, o paciente relata seu sonho, descreve tudo o que se lembra com a maior riqueza de detalhes possível e o psicoterapeuta investiga com ele suas percepções no sonho: o que passou na sua cabeça, tanto durante o sonho, quanto quando ele o descreve.
Como o sonhador mantém suas crenças dormindo ou acordado, será possível identificar possíveis distorções cognitivas e desafiá-las, buscando uma flexibilização das mesmas.

Fora isso, investiga-se também se há semelhança entre as emoções presentes nos sonhos com o que a pessoa pensa e sente na vida real, em seu dia a dia, ou em uma situação específica. Assim pode-se verificar se existem padrões tanto de estilos de pensamento (forma de pensar), quanto de emoções e tirar aprendizados, bem como modificar o que não for funcional (positivo).

Desse modo, mesmo o trabalho com sonhos que seria mais subjetivo, torna-se mais objetivo e prático. Já que se busca aproximar o conteúdo que toca o paciente no sonho, com sua realidade no momento presente.

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

É um erro confundir 'esquecer' com perdoar

"Para perdoar é preciso lembrar, pensar, lidar com a questão. Tentar esquecer não ajuda em nada no processo de perceber a situação de outra maneira"
Para muitos, perdoar é uma tarefa muito árdua. Tanto perdoar os outros, quanto a si mesmo.

Quando toco nesse tema em meus atendimentos, questiono para o paciente o que significa para ele perdoar... e é comum ouvir: "esquecer o que aconteceu".
Bem, vamos refletir sobre o assunto com objetivo de ampliar a consciência e, quem sabe, auxiliar no processo de perdão.

Perdão é a capacidade de você lembrar-se de uma ofensa, sem com isso afetar o relacionamento. É olhar para o que aconteceu e não ter sentimentos negativos com relação à pessoa envolvida.

Uma forma de se perdoar é se desculpar. Desculpar, quer dizer retirar a culpa, absolvendo assim o envolvido e desse modo não depositando mais emoções negativas sobre ele.

Desse modo, perdoar nada tem a ver com esquecer. Para perdoar é preciso lembrar, pensar, lidar com a questão. Tentar esquecer não ajuda em nada no processo de perceber a situação de outra maneira, para poder mudar o que se sente. Esquecer é justamente buscar ocultar a situação, não olhando mais para ela e tentando desse modo não sentir mais as emoções negativas.

Não é possível esquecer o que se passou simplesmente como resultado de um desejo. Não temos esse poder de esquecer as coisas quando queremos.

Quando esquecemos algo é: por não ter importância, por já ter sido superado ou por ter sido algo muito traumático e nossa mente faz isso como mecanismo de defesa.

No entanto, nesses casos não é incomum que haja sintomas provenientes dessa questão que se tornou inconsciente, unicamente porque ela não foi tratada ou resolvida, de modo que continua a incomodar mesmo sem o indivíduo lembrar-se dela.

Forgive X forget

Existe um trocadilho na língua inglesa que pode nos ajudar a analisar e compreender melhor o significado do perdão. Perdão em inglês é forgive, enquanto que esquecer é forget.

Ao quebrar a palavra forgive temos for give, que significa (para dar), o que nos permite pensar que o perdão é algo que temos a possibilidade de dar, é feito para isso. É um ato para fora, gera movimento. Você dá ao outro a responsabilidade pela situação e fica livre dos sentimentos negativos.

Já ao quebrar forget temos for get, que significa (para receber). Isso não nos dá autonomia para darmos nada, apenas recebermos. Recebermos o quê? As consequências disso que tanto buscamos esquecer. Ficamos inertes, passivos, porque se pega para si a responsabilidade de lidar com a situação, guardando o conteúdo (na tentativa de esquecer) e desse modo as emoções negativas permanecem. 

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sábado, 15 de setembro de 2012

Quando lutar para mudar uma situação e quando simplesmente aceitá-la?

Cada situação exige um comportamento adequado 

- "Temos a tendência de utilizar experiências passadas para generalizar comportamentos que deram certo" 
Lutar por algo ou aceitar uma situação são duas estratégias opostas, mas que são necessárias e muito úteis em diferentes situações. Persistir somente em uma delas pode trazer resultados desastrosos, quando utilizada no momento errado.

Vejamos as duas histórias abaixo:

1ª) Uma mosca cai em um copo de leite: imersa nesse liquido e impossibilitada de voar, ela começa a se mexer freneticamente lutando contra o mesmo na tentativa de se safar. Ela luta e luta e começa perceber que está ficando cansada e que suas forças estão se esvaindo. De repente, nota que se forma uma película e onde antes ela não tinha apoio nenhum, agora começa a ter uma superfície para se colocar. Diante disso, ela concentra ainda mais suas forças e continua lutando, mexendo suas patas e asas com muito vigor, até que cria uma superfície sólida o suficiente para se apoiar e sair voando.

2ª) Uma mosca cai em um copo de água: imersa nesse liquido e impossibilitada de voar, ela começa a se mexer freneticamente lutando contra o mesmo, na tentativa de se safar. Ela luta e luta e começa perceber que está ficando cansada e que suas forças estão se esvaindo. Continua lutando, mexendo suas patas a asas com o restante das forças que lhe restam. Acaba por morrer afogada.

Percebe-se que o contexto (a situação) nas duas histórias são diferentes e que utilizar a mesma estratégia para ambas não é funcional. Cada uma requer um comportamento específico. Se a mosca utilizada para contar as histórias for a mesma, ela pode ter a tendência de utilizar suas experiências passadas para generalizar comportamentos que deram certo (e é exatamente isso que fazemos), mas como ilustrado acima, para cada situação há um comportamento adequado e utilizar o comportamento que foi útil em uma outra situação pode ter um resultado muito ruim.

Antes de sair agindo, precisamos primeiro compreender a situação e o contexto em que estamos. Depois de feita essa análise, aí sim estamos prontos para escolher se esse dado momento pede uma estratégia de luta ou uma estratégia de aceitação.

Lutar quer dizer buscar um resultado diferente do apresentado através de algum ou alguns comportamentos, ou seja, é procurar mudar a situação de alguma maneira.

Aceitar quer dizer compreender a situação percebendo que há aspectos imutáveis. É não despender energia em algo que não pode ser mudado. Aceitar não quer dizer cruzar os braços e não fazer nada, mas sim entender quais aspectos não são passíveis de modificação e trabalhar para assentir (concordar), assumir ou receber de boa vontade isso que se apresenta.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Saiba como driblar desejos que te afastam de atingir um objetivo



“Difícil não é fazer o que queremos. Difícil é fazer o que não queremos”

"... pensamentos permissivos são desculpas que nos damos para fazer algo que nos trará prazer ou gratificação a curto prazo..."

Todos temos metas e objetivos que queremos alcançar. Para alcançá-los precisamos ter comportamentos que nos levem em direção ao nosso alvo.
Se na teoria é tão simples o planejamento de como atingir os objetivos, por que então por tantas vezes as pessoas se queixam de terem dificuldade ou não conseguirem alcançar suas metas? Por que dizem que não conseguir cumprir o que se propuseram?

A resposta de algumas pessoas poderia ser: “elas se autoboicotam”. E isso seria uma explicação plausível, no entanto ainda assim não resolveria o problema. Precisamos saber por que as pessoas se boicotam e nesse caso a resposta é: “Porque elas têm pensamentos permissivos e acabam se entregando a eles ou alimentando-os”.

O que são pensamentos permissivos?

Alguns exemplos de pensamentos permissivos são: “só mais um pouquinho”, “só hoje”, “depois eu faço”, “é só dessa vez”, entre outros. Esses pensamentos, como o próprio nome diz, nos permitem fazer algo que queremos a curto prazo, mas que muitas vezes vai de encontro com nossos objetivos a médio ou longo prazo. Um bom exemplo de uma situação é quando resolvemos emagrecer. Pensamos em comportamentos que nos ajudariam a isso, como fazer dieta e atividade física e geralmente até esse ponto não há problema algum.

Os problemas começam quando preciso acordar cedo para ir à academia e nesse caso posso ter o pensamento “estou muito cansada hoje, amanhã eu vou” ou ainda quando chega o horário do almoço e quando vejo tantas opções apetitosas (e gordurosas) no cardápio penso: “vou comer isso só hoje, amanhã eu recomeço a dieta”; se isso acontece e eu embarco nesses pensamentos, pode ter certeza que me afastei um passo do meu objetivo.

Percebe-se assim que os pensamentos permissivos são desculpas que nos damos para fazer algo que nos trará prazer ou gratificação a curto prazo, mas colocando em risco nossas metas. Eles são tipos de pensamentos automáticos que aparecem quando precisamos ter força de vontade para fazer algo. A força de vontade é aquela motivação que preciso quando justamente NÃO estou com vontade de fazer alguma coisa.

É lógico que queremos alcançar nossos objetivos, mas somos muito mais reforçados e motivados por gratificações a curto prazo do que a médio e longo prazo. Assim fico muito mais tentada a comer um doce ou ficar em casa (ao invés de ir à academia) porque são reforços (gratificações) a curto prazo do que pensar que em X tempo, terei o corpo que sonho, caso me engaje no processo de fazer dieta e ginástica. Ou seja, para alcançar minhas metas preciso primeiro passar por um processo de esforço (fazer algo desconfortável) para somente depois ser reforçada (gratificada) por isso. É por isso que é tão difícil para tantas pessoas manterem-se motivadas e engajadas na disciplina necessária para se alcançar algo.

Mas então não há solução?

Aparentemente esse quadro parece bastante desanimador não?

Lutar contra nossos pensamentos permissivos e abrir mão dos prazeres a curto prazo para lá no futuro alcançarmos algo, parece quase que impossível. Não direi que há uma solução fácil, mas há soluções viáveis e que podem ajudar muito a manter-se engajado nos comportamentos necessários para atingir seus objetivos.

Do mesmo modo que podemos desafiar as distorções cognitivas (percepção negativa) e outros pensamentos automáticos, também podemos desafiar os pensamentos permissivos.

Primeiro precisamos ficar atentos quanto ao surgimento do pensamento permissivo. Ou seja, precisamos identificá-lo quando surge em nossa cabeça. Assim feito, há diversas estratégias possíveis que podem se somar:

Cinco estratégias para manter o foco no seu objetivo

1ª) Ignore esse pensamento permissivo

Não dê atenção a ele e simplesmente siga com o planejado. Não negocie com ele, qualquer negociação fará com que você dê atenção a ele e haverá uma grande possibilidade de flexibilizar muito o comportamento que você precisa ter para alcançar aquilo que quer. Diga não a ele e siga em frente. Seja “surdo” para ele.

2ª) Quebre sua grande meta em pequenas submetas

Por exemplo, se quer emagrecer quatro quilos em um mês, coloque submetas de um quilo por semana. Desse modo o resultado buscado não fica tão distante e temos o reforço a curto prazo de termos alcançado algo.

3ª) Somado à estratégia acima, dê-se pequenos presentes ou gratificações a cada submeta alcançada

Essa estratégia faz com que haja outros reforçadores que competirão com aqueles que querem desviá-lo do seu caminho. Um exemplo seria caso eu me pese no dia determinado e tenha emagrecido o desejado, me darei de presente ir ao cinema assistir àquele filme. Gratificar-se com parabéns a cada comportamento positivo também é uma estratégia bem interessante (por exemplo, me dar os parabéns por ter ido à academia hoje).

4ª) Pensar a curto prazo no quesito de comportamentos necessários para alcançar o objetivo desejado e a médio ou longo prazo quando se trata dos pensamentos permissivos

Geralmente fazemos o contrário, pensamos que ainda precisaremos deixar de comer muitos doces e ir muitas vezes à academia para alcançar o peso desejado - e isso só desanima. Em contrapartida, se pensar no que é necessário ser feito HOJE, o amanhã fica para o amanhã. E quando se trata dos pensamentos permissivos, é necessário que se lembre do resultado que causarão a médio e longo prazo, caso dermos ouvidos a eles. Isso ajuda com que não nos foquemos somente no prazer imediato e lembremos que podemos por fim a um objetivo se sucumbirmos ao pensamento permissivo.

5ª) Propor a cada dia ter comportamentos desconfortáveis saudáveis

Esses comportamentos nos aproximam de nossos objetivos. Pode-se criar o “diário de desconforto” e monitorar esses comportamentos, bem como o grau de desconforto e o que sentiu adotando esse comportamento.

Essas informações são úteis, pois podemos perceber que o grau de desconforto vai diminuindo conforme nos engajamos nos comportamentos desconfortáveis saudáveis, bem como aprendemos a lidar melhor com os sentimentos negativos. Colocar razões para atingir o objetivo também ajuda o comprometimento.

Veja um exemplo:

Objetivo: emagrecer 5 quilos

Razões: ficar mais bonita, sentir-me mais atraente, usar as roupas que quero.


Comportamento desconfortável              Quando adotei e grau de                 Como me senti
saudável                                                   desconforto real (0-100%)             posteriormente

Fiz musculação por 1 h.                          Terça às 22h – 60%                  Cansada, alegre

Não tomei milk shake                           Quarta às 20h – 80%                  Irritada, satisfeita



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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Não lute contra um pensamento negativo, amplie sua visão sobre ele


"... nos atendimentos não pedimos ao paciente que deixe de acreditar naquele pensamento automático negativo, mas sim que amplie seu foco de visão. Lutar contra o pensamento automático seria muito cansativo e muitas vezes inútil"

Uma das estratégias da TCC é fazer com que o paciente aprenda a identificar seus pensamentos negativos automáticos e passar a desafiá-los, buscando pensamentos alternativos mais funcionais, ou seja, mais adequados às situações ou positivos.

O que pensamos influencia o que sentimos e consequentemente nossos comportamentos. Desse modo ter pensamentos mais adequados às situações traz como consequência emoções e ações mais eficazes.

Como isso acontece na prática?

Dois passos para ter pensamentos positivos:

1º passo

Quando procuramos perceber uma situação de outra maneira, além da automática que nos vem primeiro à cabeça, expandimos nosso modo de explicar aquela situação ou a causa dela. Aumentar as possibilidades das causas ou resultados daquele evento sobre o qual pensamos, tem como repercussão ampliar nosso foco de visão, fazendo com que nossa percepção enxergue além do pensamento negativo.

Quando fazemos isso, além de perceber que há outras explicações plausíveis para a situação, também passamos a “depositar nossas fichas” não só mais em uma única possibilidade, mas as dividimos em diversas. A consequência disso é: mesmo que ainda acredite naquele primeiro pensamento automático negativo, no qual acreditava 100% antes, agora, simplesmente pelo fato de ter outras explicações e dividir a atenção com elas, pode se passar a acreditar nele, por exemplo, 60%.

Desse modo, só o fato de ampliar o leque de alternativas, já podemos ter uma diminuição na credibilidade do pensamento negativo resultando em uma intensidade menor da emoção negativa que resulta desse pensamento. É por isso que nos atendimentos não pedimos ao paciente que deixe de acreditar naquele pensamento automático negativo, mas sim que amplie seu foco de visão. Lutar contra o pensamento automático seria muito cansativo e muitas vezes inútil.

2º passo

O próximo passo é averiguar o quanto cada uma dessas explicações é realista. Isso geralmente mostra à pessoa que há outras explicações mais realistas do que o pensamento automático. Outro recurso utilizado também é o de refletir como é possível testar sua validade ou veracidade. Esse recurso pode resultar em alguma ação prática, que auxilia a desafiar o pensamento automático negativo bem como a reforçar outras explicações - suas justificativas para uma determinada situação.

É importante dizer que mesmo com essas técnicas, em alguns momentos o pensamento automático negativo será percebido como real. Ou seja, ele não é uma distorção da realidade ou ainda é a explicação mais realista possível. Diante disso, o recurso utilizado é a estratégia de resolução de problemas, já abordado em texto anterior (veja aqui).

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