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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Maioria das pessoas quer mudar seu modo de ser, mas sofre por não conseguir

Vícios emocionais - "... temos lembranças gravadas tanto em nossa mente, quanto em nosso corpo e essas retornam ou são reativadas sempre que passamos por um evento que percebemos como semelhante ao vivenciado no passado"Todas as pessoas que me procuram, seja no consultório, seja pedindo algum auxílio por e-mail, estão sempre atrás da mesma coisa: MUDANÇA.

Elas sofrem por estarem deprimidas, por que estão tendo muitas brigas com o cônjuge ou ainda por que não se aceitam. Motivos para incômodos e desconfortos há inúmeros que poderiam ser listados.

É verdade que muitos deles estão no ambiente, ou seja, fora de nós, mas, ainda assim sofremos, mesmo quando está tudo bem em volta; porque a questão não está fora, mas sim, dentro.

Drummond já dizia: "A dor é inevitável. O sofrimento é opcional." E é assim mesmo. Estamos realmente fadados a passar por diversas situações tais como: desemprego, morte de pessoas queridas, assaltos, doenças, discussões com pessoas próximas, entre outros tantos acontecimentos. Isso hora ou outra poderá ocorrer.

No entanto, como escolheremos passar por essas situações?

Isso depende de cada um de nós, depende da decisão que tomaremos de como lidar com o evento em questão.

Recentemente assisti a um filme chamado: "Violação de o privacidade", direção Omar Naim (2005/EUA). A história se passa no futuro. Algumas pessoas possuem em seu cérebro um implante de memória comprado por seus pais antes mesmo de nascerem, o qual registra todos os fatos ocorridos em sua vida. Após sua morte, esse implante é retirado e, com o seu conteúdo, é editado um filme sobre a vida da pessoa exibido em uma cerimônia póstuma chamada Rememória.

O interessante nesse filme é que o conteúdo gravado sofre influência da percepção da pessoa. Ou seja, a lembrança que permanece é uma mistura do fato com a leitura que a pessoa fez do mesmo. Isso fica bem claro, uma vez que o protagonista, representado por Robin Williams, passa boa parte de sua vida se culpando de um fato que na realidade não aconteceu do modo como ele se lembrava.

Assim também somos nós. Podemos optar por como passaremos pelos eventos: colocando muito peso nos mesmos, percebendo-os como muito difíceis ou dramáticos; ou então vendo-os como uma oportunidade de aprendizado, compreendendo-os como coisas da vida.

Participei de uma aula onde a Dra. Uma Krishnamurti, psiquiatra e professora deYoga na Índia, discorreu a respeito de "Felicidade e Yoga". Nessa oportunidade, ela comentou o quanto parece que gostamos de sofrer uma vez que inúmeras e inúmeras vezes optamos pelo mesmo padrão de pensamento e comportamento, levando às mesmas emoções. A explicação que ela fornece quanto ao motivo desses nossos vícios emocionais é de que temos lembranças gravadas tanto em nossa mente, quanto em nosso corpo e essas retornam ou são reativadas sempre que passamos por um evento que percebemos como semelhante ao vivenciado no passado.

Para resolver isso, ela recomenda que meditemos, pois através da meditação permitimos que essas memórias aos poucos se dissipem, sendo limpas de nosso organismo. Do contrário, com nossa mente agitada e com mil pensamentos por hora não damos tempo para essa limpeza; ficam milhares e milhares de pensamentos, impressões, percepções, sensações se acumulando mais e mais; fora que buscamos resolver um problema ou algo que incomoda falando o tempo todo sobre o mesmo.

Se eu quero não me sentir mais culpada sobre algo, como isso pode acontecer, se eu fico repetidamente retornando a esse mesmo assunto?

Se eu fico relembrando-o periodicamente trazendo de volta as sensações emocionais relacionadas ao mesmo. Quando opto por lutar contra algo, estou direcionando minha energia para esse conteúdo, reforçando-o, trazendo-o à tona. Parece antagônico, não? Dessa maneira, se quero me sentir em paz, não irei olhar para o que me traz culpa, mas sim buscarei essa paz. No Yoga se diz que é preciso meditar no oposto daquilo que se deseja mudar. Oou seja, é preciso se conectar com o conteúdo que se deseja alcançar. Isso pode ser feito através de imagens mentais, através da permanência no silêncio e conexão com esse seu conteúdo interno que almeja.

Compartilhar problemas

Outro comportamento que nos traz sofrimento é quando alguém que estimamos fala de um problema (ou dor), com o qual nos identificamos e então passamos a sofrer junto. São então dois chorando as dores, ao invés de um. Ao agirmos assim, não ajudamos o outro a ficar melhor e/ou resolver a questão e, somado a isso, ainda nos colocamos para baixo.

A intenção é boa, mas o método errado. Não tiramos o sofrimento de alguém por assumi-lo. O segredo é sermos solidários, mas inteligentes. Se queremos ajudar, nossa compaixão precisa ter a direção de trazer o outro para cima e não que nós nos coloquemos para baixo junto com ele.

Do mesmo modo que nos ligamos ao sofrimento dessa pessoa, o contrário também pode acontecer. Ou seja, a pessoa pode se ligar à nossa força, bem-estar, amorosidade, bom humor ou qualquer outro estado de espírito que eu escolha ficar. Isso de modo algum é ser indiferente, na verdade, é o oposto. Tenho tanto apreço e zelo pelo outro (e também por mim), que opto por facilitar para que ele se sinta melhor. Para isso me mantenho bem e me conecto com bons sentimentos e pensamentos. Através disso, busco permitir que essa pessoa acesse esses conteúdos.

Para que todos esses processos aconteçam, precisamos estar conscientes, acordados. Se estivermos no automático, não teremos a possibilidade de modificar esses hábitos ou padrões.

Não consigo perceber se eu realmente senti algo naquele momento que me faria ter aquele comportamento em específico ou se estou tão habituada a responder da mesma forma, que simplesmente faço sem perceber. Assim trago à tona emoções e pensamentos ligados a essa postura. É necessário decidir se desapegar dessas cognições, emoções e comportamentos que nos fazem sofrer. Nos prendemos tanto a algumas "verdades",que passamos a ficar cegos para quaisquer outras formas de ver ou interpretar as situações.

Quando ouvimos algo que nos chama a atenção, ficamos repetidamente expostos a certos comentários de pessoas próximas a nosso respeito (ou a respeito de como são as coisas no mundo); vemos uma determinada situação acontecendo e nos apegamos a isso ferrenhamente, não abrindo brechas para outras formas de pensar, mesmo que essa nos traga sofrimento. O mesmo ocorre com as emoções e comportamentos. Eu me apego a uma maneira de agir e nem sei mais se aquilo é adequado ou faz sentido, mas como aprendi a me reconhecer através dessa atitude, repito a mesma sem parar para me reexaminar e averiguar se é desse jeito que quero responder.

Se aprendi a me rotular como uma pessoa explosiva, então determinei que preciso ter essa reação sempre que algo me desagradar ou não sair como desejo. Dessa forma, tenho o comportamento de, por exemplo: gritar, bater os pés, socar a parede... e, quando percebo, já estou com raiva.

A pergunta é: eu já estava assim antes de ter essa atitude ou passei a me sentir assim (principalmente nessa intensidade emocional) após ter tido esse comportamento?

Desejo a todos um ótimo despertar e, através dessa consciência, se mantenha alerta/acordado - em inglês utilizamos o termo awareness. Assim poderemos mobilizar grandes mudanças em nossas vidas, iniciando por nós.

Leia este texto também em Via Estelar.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Frases eficazes para sair do piloto automático e ser você mesmo

"No início os pensamentos automáticos negativos ainda virão com bastante frequência mas, ao percebê-los, optar voluntariamente para perceber a situação sob outro aspecto, fará com que pouco a pouco eles diminuam a frequência"Percebo que a cada dia as exigências para o fazer e o ter aumentam mais e mais.
Em contrapartida o ser, parece ficar em segundo plano. Há uma cobrança por ser o (a) melhor e o resultado muitas vezes são inúmeras preocupações quanto a não atingir esse patamar, gerando sofrimento (medo, ansiedade, tristeza) em diversas situações e comportamentos como: vícios, trabalhar demasiadamente, automedicar-se, etc.

Não há problema algum em desejar melhorar. No entanto, se nos prendemos a isso, podemos acabar nos alienando de nós mesmos, de nossos valores pessoais, de nossas verdades, de estarmos realmente em contato com quem somos. Entramos em um automatismo de preencher praticamente todos os momentos de nosso dia com inúmeras tarefas, em cumprir com nossas obrigações, bem como buscar suprir as expectativas das pessoas à nossa volta.
Parece que estamos em uma corrida contra o tempo e às vezes até contra nós mesmos, pois independente de estarmos doentes, cansados, tristes ainda, assim precisamos cumprir um "check list" de coisas, caso contrário, nos sentiremos mal conosco, como se não tivéssemos feito o suficiente. Buscamos demonstrar que sempre está tudo bem e dificilmente mostramos aos outros, e também a nós mesmos, quem realmente somos.

A partir disso, acredito que as perguntas abaixo auxiliem e facilitem uma reflexão sobre como se dá atualmente sua atitude perante a vida e você mesmo:

- Quem foi que me disse que eu sou ruim e que não acerto sempre?

- Quando aprendi que não dar para o outro o que ele precisa é porque não sou bom/boa o suficiente para isso?

- Por que me fechar é a estratégia preferida do que mostrar minha vulnerabilidade?

- Autodepreciação funciona melhor do que admitir que tenho limites?

Quando seguimos pensando que não somos adequados, que somos incapazes, que precisamos nos proteger das pessoas, que precisamos sempre performar; transformamos esses pensamentos numa espécie de mantra repetido diariamente e assim passamos a fazer uma lavagem cerebral negativa em nós mesmos. O resultado não poder ser outro, ficaremos deprimidos, ansiosos e com baixa autoestima.
Já que podemos emanar diariamente pensamentos negativos, podemos também optar por perceber as coisas de outra maneira e ter pensamentos mais positivos.
No início os pensamentos automáticos negativos ainda virão com bastante frequência mas, ao percebê-los, optar voluntariamente para perceber a situação sob outro aspecto, fará com que pouco a pouco eles diminuam a frequência e esse exercício se tornará cada vez mais fácil.

Seguem algumas sugestões de pensamentos alternativos que são mais funcionais, nos colocam em acordo com a realidade, bem como com nosso processo de crescimento e desenvolvimento:

- Percebo que estou em um processo, o passo que dou hoje me faz avançar e estar um pouco melhor do que ontem.

- Não me sinto culpado (a) por não atingir as expectativas dos outros, que na verdade não existem; só existem dentro de mim mesmo (a).

- Não dá para ser bom em tudo, ser 100% em tudo.

- Faço as coisas não mais porque os outros vão me achar bom (a) ou legal, mas porque quero fazê-las.

- Parabéns pelo meu esforço. Consegui isso em função dele.

- Quando coloco as expectativas muito altas, passo a me exigir demais e recorro ao perfeccionismo. A consequência será sofrimento.

Todas essas frases e muitas outras podem ser criadas e nos fazem perceber o quanto muitas vezes somos desleais conosco e que podemos ser mais colaboradores, caso percebamos as situações sob uma ótica mais ampla e global.

Reflexões sobre as frases acima

Quando estamos dando respostas certas, já estamos em uma zona de conforto. Quando damos respostas erradas, é porque estamos nos desafiando, estamos aprendendo.
Penso ainda que aprendemos mais com nossos erros do que com nossos acertos, uma vez que quando acertamos muitas vezes, nem pensamos mais sobre aquilo. Já quando erramos, temos a oportunidade de destrinchar a situação e nossa atitude como um todo, ou seja, o que pensamos naquele momento, como nos sentimos e que comportamento tivemos. A partir disso, podemos fazer uma análise do que houve para então testar outras possibilidades em situações futuras.

Outro ponto importante é ressaltarmos o passo-a-passo para se alcançar algo, ao invés de focarmos somente em nossas capacidades inatas.
Em nossa cultura é comum ouvirmos as mães dizendo aos filhos quando, por exemplo, tiram notas boas: "Parabéns! É muito inteligente", ao passo que há relatos que na China as mães, nessa mesma situação, dizem aos seus filhos: "Parabéns pelo seu esforço. Você mereceu sua conquista".
A mensagem que fica nessa segunda fala é: "Preciso me esforçar para obter bons resultados", diferentemente da primeira que subentende: "Não preciso me esforçar para ter bons resultados, o que sou já basta".
O risco disso é que quando as notas começam a não ficar tão boas, a criança além de não saber o que fazer para resolver o problema, começa a pensar que não é mais inteligente. Desse modo o que a princípio era um reforço positivo, torna-se uma armadilha.

Como utilizar isso na prática?

Na TCC, para lidarmos com situações novas ou difíceis, muitas vezes orienta-se o paciente para construir cartões de enfrentamento; que são nada mais do que pequenos cartões (como os de visita, por exemplo) nos quais se escreve frases de efeito para si mesmo (a) de acordo com a situação que se irá enfrentar ou ainda outras mais gerais para diversos momentos. Pode-se escrever algumas das frases acima, bem como outras como:

- Quando sou gentil com os outros, me sinto feliz.

- Poderei usar aquele biquíni bonito no final do ano se eu continuar com a reeducação alimentar.

- Fico orgulhoso (a) de mim quando estudo um pouco diariamente.

- Cada dia é uma oportunidade para fazer as coisas de modo diferente.

- Se eu não juntar dinheiro, não poderei fazer aquela viagem que tanto quero.

Perceba que todas essas frases subentendem que há um esforço, dentro de um processo para se atingir algo, seja por prazer ou pela dor. Será que esse ponto de vista não gera mais aprendizado e desenvolvimento de nossas capacidades do que acertar sempre ou pensar que somos incapazes?

Leia este texto também em Via Estelar.