quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Terapia de grupo pode ser opção para superar timidez excessiva

"Problemas como fobia social, mais conhecida como timidez excessiva, e excesso de peso podem ser trabalhados em determinados aspectos, que só são possíveis dentro de uma terapia de grupo"
Não só na terapia cognitivo comportamental como em outras linhas psicoterapêuticas, há uma demanda maior pela busca de atendimento individual.

No entanto, o tratamento em grupo é muito benéfico para lidar com problemas específicos, que abordarei neste texto.

A psicoterapia em grupo é comumente associada a ambientes hospitalares, postos de saúde, clínicas e escolas, pois essa é uma forma de se poder dar conta da grande população que faz uso dessas entidades. Essa explicação é verdadeira, no entanto, não se pode reduzir a única utilidade do tratamento psicoterapêutico em grupo como uma maneira de atender uma grande demanda de pacientes. O trabalho em grupo é muito rico e propicia particularidades que não são possíveis no atendimento individual.

O grupo pode ser visto como um recorte do mundo real, ou seja, é um ambiente em que estão inseridas diversas pessoas com suas particularidades e que de alguma forma podem reproduzir dinâmicas que ocorrem no dia a dia. Um exemplo disso poderia ser uma crença de incapacidade ativada em uma situação de grupo. Essa pode ser uma oportunidade de trabalhar essa questão em um ambiente terapêutico (seguro e sigiloso) para posteriormente levar os ganhos (generalizá-los) para a vida e relações interpessoais.

Desse modo tem-se a possibilidade de entrar em contato com conteúdos e trabalhá-los em tempo real em uma situação de grupo, bem como também poder fazer mais ensaios comportamentais, ou seja, aproveitar a situação em que há outras pessoas inseridas para praticar o treino de alguma habilidade específica e ainda receber feedbacks não só do terapeuta, mas também do grupo.

Outra característica do trabalho psicoterapêutico em grupo, é adquirir mais experiência com situações-problema, uma vez que outras pessoas trarão suas demandas e dificuldades. Dessa forma pode se espelhar e aprender com elas. Na situação de grupo, há também maior suporte para a solução dos problemas, uma vez que há diversas percepções diferentes que podem ser compartilhadas.

Grupos temáticos 

Dois exemplos de grupos temáticos que podem ser muito eficazes e funcionais são: um grupo de emagrecimento e um de fobia social (conhecida mais comumente como timidez excessiva).

Em um grupo de emagrecimento os integrantes podem compartilhar suas dificuldades e se autoajudarem contando como conseguiram superá-las. Essa interação pode servir como um agente motivador entre os participantes, que poderão comemorar vitórias conjuntamente. Além do mais, é possível perceber os pensamentos automáticos mais corriqueiros que levam ao autoboicote e, nesse feedback, aprender com isso.

Em um grupo temático para trabalhar a fobia social, só o fato de estarem em um ambiente com outras pessoas e se exporem, já possibilita um treino comportamental, bem como de trabalhar em tempo real todas as *distorções cognitivas que aparecerem, sendo que essas serão muito próximas entre os componentes do grupo.

É importante fazer distinção entre grupo de apoio e grupo terapêutico. Em um grupo de apoio, como o próprio nome diz, há um suporte entre os próprios membros do grupo onde esses expõem suas dificuldades e conquistas, mas, não trabalham através da psicoterapia suas questões.

Em um grupo terapêutico, as questões que geram problemas e dificuldades são expostas, abordadas e trabalhadas através de técnicas adequadas de modo a corrigir a percepção distorcida das pessoas a respeito da realidade, bem como modificar os comportamentos disfuncionais - não producentes.
* Falsa percepção dos fatos e acontecimentos baseada em crenças pessoais.

Leia este texto também em Via Estelar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Onde existe um problema pode estar a solução


"Solução de um problema pode estar dentro dele e pode ser, inclusive, o que você mais teme fazer"

Geralmente as pessoas veem as dificuldades, desafios e problemas como algo negativo, que atravanca ou impede de se conseguir alguma coisa.

A famosa frase de Winston Churchill: “O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade” parece mais uma utopia do que uma verdade.

Na prática, isso pode funcionar, se você tiver abertura para olhar a situação de uma outra maneira e se permitir testar justamente o que possa lhe parecer mais difícil.

Vamos imaginar a seguinte situação: um profissional que tenha a crença de incapacidade ativada e que para compensá-la utiliza-se do comportamento de segurança de perfeccionismo. Ele busca sempre fazer o seu melhor, cobra-se o tempo todo, tenta resolver todos os problemas sozinho; tudo isso porque precisa provar para si mesmo (e talvez para os outros que é capaz). Não se permite pedir ajuda, pois isso seria “assumir o seu fracasso”. Desse modo, sente-se ansioso o tempo todo, acreditando que sempre precisa fazer mais e que nunca é o suficiente.

Temos acima descrito um problema. Aparentemente parece muito complexo para ser resolvido. Talvez ansiolíticos ajudassem, anos de psicoterapia, procurar um profissinal de coaching, fazer mentoring com o chefe ou ainda largar tudo e buscar algo em que se cobre menos. Todas essas possibilidades podem funcionar. No entanto, é provável que dentro dessa mesma situação haja uma solução.

E qual poderia ser nesse caso?

O que essa pessoa tem como problema é que ela se vê como incapaz e busca freneticamente compensar essa percepção que tem de si mesma, tentando dar conta de tudo sozinha. Sabemos que isso é impossível, mas ela precisa ignorar isso porque aceitar que não pode dar conta de tudo sozinha seria assumir que é incapaz.

No entanto, talvez a solução seja justamente pedir e aceitar ajuda (por exemplo, de outros profissionais ou colegas de trabalho) uma vez que assim compartilharia as responsabilidades, aprenderiam juntos, compartilhariam dúvidas e dificuldades; bem como provavelmente poderiam ser mais exitosos nas atividades desenvolvidas, uma vez que duas cabeças pensam melhor do que uma. Desse modo, buscar auxílio (que é justamente o que mais se temia) poderia ser uma excelente solução para esse problema.

Essa analogia pode ser empregada para muitas outras situações.

Solução do problema pode estar dentro dele

Você pode também pensar nos problemas que tem em sua vida e buscar perceber se a solução não está justamente dentro dele (ou relacionada a ele) e podendo ser, inclusive o que você mais teme fazer. Que tal testar isso?

Problema- Continuar num relacionamento insatisfatório para não ficar sozinho ou mantê-lo até iniciar outro relacionamento.

Solução - Ficar só por algum tempo, para perceber como se sente e pesar os prós e contras dessa situação.

Problema - Medo de saber sobre o passado do(a) companheiro(a) e ter muito ciúme e insegurança por conta disso.

Solução - Perguntar o que tem vontade de saber ou pedir para contar o que aconteceu.

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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A traição ao amor


...A pessoa externaliza sobre aqueles que são impotentes e dependentes os insultos e traumas que sofreu quando era uma criança impotente e dependente.
...Sem pensar, a maioria dos pais trata seus filhos como foram tratados por seus pais. Em alguns casos, fazem isso apesar de uma voz interior dizer-lhes que isso está errado. Uma criança maltratada geralmente torna-se um genitor que maltrata porque a dinâmica desse comportamento fica estruturada em seu corpo. Os filhos que foram submetidos á violência são geralmente violentos com seus próprios filhos porque estes são objetos fáceis para a descarga da raiva reprimida. Com o tempo, as crianças identificam-se com seus pais e justificam tal comportamento como necessário e carinhoso.
...Com sua profunda sensibilidade, uma criança pode sentir o amor do genitor, mesmo quando está sendo ferida. Ela percebe os sentimentos que estão abaixo da superfície e acredita neles. É como se a criança acreditasse que o abuso é uma expressão de amor.
...O ódio não é mau, assim como o amor não é bom. São ambos emoções naturais, apropriadas em certas situações. Amamos a verdade, odiamos a hipocrisia, Amamos o que nos dá prazer, odiamos o que nos causa dor. Há uma relação de polaridade entre essas duas emoções, assim como há entre a raiva e o medo. Não podemos ficar com raiva e medo no mesmo momento, embora possamos oscilar entre esses sentimentos se a situação exigir.
... Nesse processo de autodescoberta, a análise do comportamento e do caráter é a bússola que nos dá a verdadeira direção. Temos de entender o como e o porquê do comportamento, antes que possa ser transformado. Devemos começar sempre com o reconhecimento e a aceitação da inocência de uma criança. Ela não tem conhecimento dos complexos problemas psicológicos da personalidade humana. O amor de uma criança por seus pais que é a contrapartida do amor dos pais pela criança, está tão enraizado na natureza que requer uma boa dose de sofisticação da parte da criança para questioná-lo. Até esse momento, a criança pensará que o abuso e a falta de amor se devem a alguma coisa que ela tenha feito de errado. Não é difícil se chegar a essa conclusão. Por exemplo, os conflitos entre os pais são comumente projetados no filho. Um dos genitores acusará o outro de ser indulgente demais, o que faz com que a criança se dê conta de que não pde agradar a ambos. Geralmente, a criança torna-se o símbolo e o bode expiatório dos problemas conjugais, e, em muitos casos, embora a criança esteja no meio, a criança é obrigada a tomar partido. Sei de muito poucas pessoas que saíram da infância sem uma forte sensação de que alguma coisa está errada nelas, de que não são o que e como deveriam ser. Conseguem apenas imaginar que, se fossem mais amorosas, tivessem se empenhado mais e fossem mais submissas, tudo estaria certo. Essas pessoas levam para os seus relaciomentos uma postura de tentar satisfazer o outro, e ficam chocadas quando descobrem que isso não dá certo.
Relacionamentos adultos saudáveis baseiam-se em liberdade e igualdade. Liberdade denota o direito de expressar livremente os próprios desejos e necessidades; igualdade significa que cada pessoa está no relacionamento por si mesma, e não para servir ao outro. Se a pessoa não consegue falar abertamente, não é livre; se tem de servir a uma outra, não é igual. Mas muitas pessoas não sentem que tenham esses direitos. Quando crianças, foram recriminadas por exigir a satisfação de seus desejos e necessidades; foram rotuladas de egoístas e insensíveis. E foram levadas a sentir-se culpadas por colocar seus desejos acima daqueles dos pais.
Quase todos os relacionamentos começam com indivíduos sendo atraídos um ao outro por sentimentos poositivos e prazer. Infelizmente, é raro que essas coisas continuem a crescer e aprofundar-se com o passar dos anos. O prazer desaparece, os sentimentos positivos tornam-se negativos e o ressentimento aumenta porque, sem o sentimento de ser livre e igual, o indivíduo sente-se insatisfeito e aprisionado. A raiva reprimida é atuada de uma forma ou de outra - seja psicológica ou fisicamente - e o relacionamento está falido. Nesse ponto, o casal pode romper ou procurar aconselhamento num esforço para resgatar os bons sentimentos que um dia tiveram um pelo outro. Não tenho visto muitos casos em que o aconselhamento seja eficaz. A maioria dos profissionais tem como objetivo ajudar os indivíduos a compreender um ao outro e fazer um esforço maior para ficaram bem juntos, mas na realidade isso apóia a atitude neurótica de empenhar-se. Nenhum empenho torna alguém mais amoroso ou digno de amor. Nenhum empenho produz prazer ou alegria. O amor é uma qualidade de ser - de ser aberto - e não de fazer. Podemos ganhar uma recompensa pelo empenho, mas o amor não é uma recompensa. É a excitação e o prazer de duas pessoas encontram uma com a outra quando se entregam à atração que há entre elas. Posto que todos os relacionamentos amorosos começam com uma entrega, o seu fracasso em proseguir decorre do fato de que a entrega era condicional, e não total, e era à outra pessoa, não ao self. É condicional do que a outra pessoa satisfaça as suas nescessidades e não representa uma partilha plena do próprio self. Uma parte do self fica retida, escondida, negada por causa de culpa, vergonha ou medo. Essa parte retida, raiva e ódio, é como um tumor no relacionamento, e o corrói lentamente. A tarefa terapêutica é remover o tumor.

Autorizado:Lowen, Alexander - Alegria - A entrega ao corpo e à vida - São Paulo : Editora Summus, 1997.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Grupos Terapêuticos (Abordagem Cognitivo-Comportamental)


Nomes que damos às emoções dependem de vivências da infância



O nome que damos ao que sentimos corresponde de fato à emoção vivida? 

"... desde que nascemos e passamos a interagir com outros seres humanos, passamos a ser educados sobre o que estamos sentindo..."
É possível dizer que as emoções sempre estiveram presentes em nós desde nosso nascimento?

Ou então, a partir de quando passamos a ter emoções ou sentimentos? Essa é uma reflexão interessante de se fazer.

Como sabemos se estamos tristes, com raiva, com medo ou ainda alegres?

No que você se baseia para nomear aquilo que sente em um determinado momento?

O que utilizamos como parâmetro são nossas reações físicas e fisiológicas.

É através de algumas mudanças no nosso organismo (sinais – percebidos ou medidos por outros - e sintomas – perceptíveis somente para a própria pessoa) que nos baseamos para dizer o que estamos sentindo.

Desse modo, as emoções, sentimentos e humores, estão diretamente ligadas à propriocepção, ou seja, a capacidade que cada um tem de perceber seu próprio corpo.

Se eu me atento mais às minhas reações corporais, tanto mais eu perceberei qualquer oscilação, podendo ou não atribuir essas alterações a uma mudança de humor ou ainda a alguma emoção.

O que determina então se eu atribuirei ou não alguma mudança em meu organismo a uma emoção, sentimento ou humor?

Isso dependerá muito da educação que tive na minha infância. Você pode-se perguntar o que ou como a educação influencia as emoções ou humor de uma pessoa. O que ocorre é que desde que nascemos e passamos a interagir com outros seres humanos, passamos a ser educados sobre o que estamos sentindo.

Quando o bebê abre a boca e mostra as gengivas, esboçando um sorriso, a mãe pode-lhe dizer: “Você está feliz porque viu a mamãe!” ou ainda, quando o bebê está no berço e chora, a mãe pode pegá-lo no colo e dizer: “Você estava triste por que mamãe te deixou aqui sozinho?”

Dessa maneira, passamos desde cedo a ter uma instrução sobre o que estamos sentindo com base nos feedbacks recebidos de quem está à nossa volta. Dessa forma, associamos o nome que outros dão a algumas reações que temos, ao que percebemos sentir naquele momento. Aos poucos nos apropriamos dessas alterações que percebemos em nosso organismo e sozinhos passamos a nomear um conjunto de reações físicas e fisiológicas, fornecendo-lhes um rótulo: alegria, ansiedade, irritação, mau humor, amor, etc.
Reações corporais e emoções 

Dentro desse processo há também uma percepção das diferentes nuances das mudanças que percebemos em nosso corpo, acarretando assim em nomes diferentes para diversas reações. Por exemplo: podemos dizer que ficamos com raiva em um determinado momento, sendo isso mais sutil do que se disséssemos (ou reconhecêssemos) que sentimos ódio.

Desse modo o reconhecimento e nomeação das emoções e estados de humor depende muitíssimo do estímulo que tivemos em nossa infância. Cada família e/ou cultura dá mais ou menos foco (atenção) para as emoções, bem como às emoções positivas ou negativas. Há famílias mais ansiosas, famílias mais alegres e portanto dão mais atenção a esses sentimentos.

Não é difícil perceber diferenças no modo como as pessoas vivenciam suas emoções nas diferentes famílias e culturas.

Leia este texto também em Via Estelar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De volta para o passado


Por Contardo Calligaris

Os remorsos são injustos: esquecemos as razões que nos fizeram decidir nas circunstâncias passadas

ADORARIA QUE fosse possível viajar no tempo e voltar para épocas anteriores de minha vida.

Ingenuamente, imagino que, em vários momentos do passado, eu teria me beneficiado de algo que sei só agora. Quem melhor do que eu aos 50 ou 60 anos para aconselhar uma versão mais jovem de mim, a de dez, 20, 30 anos atrás?

Hoje, enfim, meço as consequências de algumas escolhas antigas. Sei (ou imagino) que teria sido melhor me separar logo daquela pessoa e nunca me afastar de outra, que era insubstituível e que eu perdi; sei (ou imagino) que poderia ter evitado riscos inúteis e me exposto a outros dos quais fugi; sei (ou imagino) que deveria ter insistido quando desisti e desistido quando insisti. E, para quem pode viajar no tempo, nunca é tarde para salvar Inês.

Voltar ao passado para nos dar conselhos em momentos cruciais parece ser uma maneira racional de endireitar nossa vida, a única que leve em conta as consequências confirmadas de nossos atos.

Mas um ditado italiano ("del senno di poi son piene le fosse" -da sabedoria do depois as valas estão cheias) sugere que esse saber das consequências, além de chegar atrasado, talvez seja inútil.

Concordo: as escolhas da gente são quase sempre as melhores, se não as únicas possíveis na hora em que tivemos que decidir. E os remorsos são quase sempre fajutos: quando reavaliamos e censuramos nossas decisões passadas à luz de suas consequências presentes, estamos esquecendo as razões que nos fizeram decidir naquele momento e naquelas circunstâncias. Mesmo assim, a vontade é grande de voltar atrás e alterar o passado.

Quando era mais jovem, depois de qualquer crise (embate, briga, acidente), revivia mil vezes o que acabava de acontecer, corrigindo ou aperfeiçoando imaginariamente minha reação (o que eu "deveria ter feito").

Hoje, mais velho, quando volto a lugares do passado, sempre os encontro assombrados, como se minha história ainda estivesse por lá, suspensa, na espera de uma solução alternativa à que se realizou na época.

Me dei conta disso quando, pela primeira vez, morreu alguém que tinha sido minha companheira. O luto foi violento, igual ao que seria se minha história com ela nunca tivesse acabado.

Como podia ser? Se passaram tantos anos sem eu pensar nela... Por que esta dor agora? Era como se, com a morte dela, acabassem as chances de dar àquela história um desfecho outro, como se só com a morte dela o passado se tornasse realmente passado.

Seja como for, por ser um fã das viagens no tempo, não podia perder "Looper - Assassinos do Futuro", de Rian Johnson, que estreou na sexta passada. No filme, daqui a 30 anos, as viagens no tempo serão possíveis e proibidas. A máfia instalará seus assassinos, os "loopers", no passado (ou seja, numa época mais permissiva); e para esses assassinos ela despachará as pessoas que deseja eliminar, para que sejam mortas.

Um dia, um assassino descobre que o condenado, que ele recebe do futuro, é a versão mais velha dele mesmo. Será que o jovem "looper" vai querer poupar sua própria vida? Não é óbvio: afinal, matar a nós mesmos daqui a 30 anos é parecido com fumar e comer toucinho.

Esse cara, 30 anos mais velho do que eu, será que ainda sou eu? E será que alguém aos 20 ou aos 30 escutaria o que sua versão de 60 anos tentasse lhe dizer? Ou será que, para mim aos 20, eu seria hoje apenas mais um velho chato qualquer? Questão antiga: fora nossa identidade jurídica, que permanece igual, será que, ao longo da vida, somos a mesma pessoa?

Nesse fim de semana, no festival de cinema do Rio, assisti a "Camille Outra Vez", de Noémie Lvovsky, título original "Camille Redouble" (não sei quando o filme será distribuído no Brasil, mas conto com o cinema Reserva Cultural, que, em São Paulo, para quem aprecia cinema francês, é uma dádiva).

No filme, Eric e Camille ficaram juntos a vida toda. Mas Eric acaba de deixar Camille por uma mulher mais jovem (e talvez menos beberrona). No Réveillon, Camille desmaia e acorda aos 16 anos. Ela reencontra seus pais, as amigas da escola e, sobretudo, Eric, pois é bem naquela época que eles se encontraram.

Claro, Camille quer mudar o curso de sua vida (não namorar Eric) para evitar a dor futura da separação. Mas o fato é que muitos amores são como a vida: eles valem a dor que seu desfecho triste nos dará eventualmente um dia.

Fonte: Folha de São Paulo, 04/10/2012.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Na TCC o sonho é visto como se fosse real


"Como o sonhador mantém suas crenças dormindo ou acordado, será possível identificar possíveis distorções cognitivas e desafiá-las, buscando uma flexibilização das mesmas"

O trabalho com os sonhos em psicologia clínica é bem conhecido.

Muito se deve ao trabalho de Freud que focou a psicoterapia em estudar e compreender o inconsciente e para isso utilizou dentre outras técnicas a interpretação dos sonhos.

Na TCC o trabalho com sonhos não é muito recorrente e por isso mesmo pouco conhecido. Não se utiliza interpretações simbólicas (por exemplo: sonhar com água pode significar entrar em contato com suas emoções), mas sim, o Modelo Cognitivo. Trocando em miúdos, assim como acontece no dia a dia, os sonhos são vistos como situações em relação às quais a pessoa tem suas percepções, emoções e comportamentos. Diante de uma situação X a pessoa tem certa percepção, em conseqüência dessa, uma emoção resulta em um dado comportamento. Desse modo o sonho é tratado como se fosse uma situação real que o paciente experienciou.

No trabalho com sonhos em uma sessão de TCC, o paciente relata seu sonho, descreve tudo o que se lembra com a maior riqueza de detalhes possível e o psicoterapeuta investiga com ele suas percepções no sonho: o que passou na sua cabeça, tanto durante o sonho, quanto quando ele o descreve.
Como o sonhador mantém suas crenças dormindo ou acordado, será possível identificar possíveis distorções cognitivas e desafiá-las, buscando uma flexibilização das mesmas.

Fora isso, investiga-se também se há semelhança entre as emoções presentes nos sonhos com o que a pessoa pensa e sente na vida real, em seu dia a dia, ou em uma situação específica. Assim pode-se verificar se existem padrões tanto de estilos de pensamento (forma de pensar), quanto de emoções e tirar aprendizados, bem como modificar o que não for funcional (positivo).

Desse modo, mesmo o trabalho com sonhos que seria mais subjetivo, torna-se mais objetivo e prático. Já que se busca aproximar o conteúdo que toca o paciente no sonho, com sua realidade no momento presente.

Leia este texto também em Via Estelar.