"Podemos nos esconder atrás de nossas justificativas"
Todos já escutamos alguém se justificando de algo que não fez explicando que isso aconteceu por isso ou aquilo. Muitos de nós somos hábeis em encontrar desculpas (muitas vezes verdadeiras) para justificar o porquê de não realizarmos algo ou por nos comportarmos de determinado modo.
Muitas vezes temos justificativas realmente factíveis, mas pelo fato de elas existirem, muitas vezes podemos nos esconder atrás delas e interpretar que elas são as causadoras da situação. Como disse Henry Ford: "Se você pensa que pode ou se você pensa que não pode, de qualquer forma, você tem toda a razão." Dessa maneira se acreditamos que qualquer evento (seja do nosso passado, da nossa personalidade, o comportamento de outra pessoa etc) é o motivo para fazermos ou não fazermos algo, então inviabilizamos qualquer possibilidade de mudança.
Do contrário, se compreendemos que essa variável pode sim interferir ou influenciar nossa decisão, sentimento ou comportamento, mas que não somos reféns dela, podendo escolher construir outro resultado, então temos a possibilidade de termos consequências diferentes. Não é fácil descobrirmos e nem percebermos muitas vezes que aceitamos essas justificativas como determinantes. mas quando conseguimos fazer isso, passamos a ser mais "senhores do nosso destino". Reflita sobre isso.
Será que nos privamos de possíveis novos prazeres, conhecimentos, relacionamentos e crescimento, pois ficamos presos aos nossos medos?
"Percepção distorcida da realidade pode levar à privação de abrir-se para situações diferentes. A própria mente faz a pessoa enclausurar-se diante da vida"
O medo é uma emoção presente na vida de todas as pessoas. Essa emoção é natural e saudável, pois nos protege de perigos, que se ignorados, poderiam nos fazer perder a vida.
Por outro lado, quando essa emoção é excessiva, passa a ser prejudicial e pode nos levar à estagnação.
Há um desenho animado chamado "Os Croods" que demonstra muito bem essa questão. Apesar de ser um filme infantil e em uma época muito distante da nossa, ele nos mostra de forma análoga como nos comportamos em alguns momentos diante de nossas crenças e aprendizados da infância. Temos algumas ideias como certas e podemos nunca nos permitir questioná-las (já que foi "papai e mamãe" que nos ensinaram) ou ainda sentimos aquilo como verdade, e portanto, acreditamos que seja.
Assim como no desenho citado acima, no mito da caverna de Platão também os homens nasceram e foram criados conhecendo somente uma verdade: a segurança daquele mundo em que viviam (a caverna) e o que era contado a respeito "dos perigos do mundo lá fora".
Na alegoria da caverna, os homens nasceram dentro dessa e encontravam-se acorrentados, virados de frente para a parede e de costas para uma brecha que permitia a luz entrar. Desse modo, viam refletidas na parede as sombras de outros homens que passavam do lado de fora e acendiam fogueiras, bem como sons, os quais eram associados às sombras. Viam criaturas disformes e muito grandes e, diante disso, sentiam muito medo de ir lá fora. Se privavam de conhecer o novo em função das distorções que faziam. Isso os mantinha enclausurados ali; não só pelas correntes, mas também (e talvez principalmente) pelas suas mentes.
Será que fazemos a mesma coisa em alguns momentos, não nos permitindo entrar em contato e/ou enfrentar situações diferentes das que estamos acostumados?
Será que nos privamos de possíveis novos prazeres, conhecimentos, relacionamentos e crescimento, pois ficamos presos aos nossos medos?
Reflita se pode haver um mundo muito mais bonito lá fora e você está se mantendo preso dentro de uma caverna escura.
"Como o sonhador mantém suas crenças dormindo ou acordado, será possível identificar possíveis distorções cognitivas e desafiá-las, buscando uma flexibilização das mesmas"
O trabalho com os sonhos em psicologia clínica é bem conhecido.
Muito se deve ao trabalho de Freud que focou a psicoterapia em estudar e compreender o inconsciente e para isso utilizou dentre outras técnicas a interpretação dos sonhos.
Na TCC o trabalho com sonhos não é muito recorrente e por isso mesmo pouco conhecido. Não se utiliza interpretações simbólicas (por exemplo: sonhar com água pode significar entrar em contato com suas emoções), mas sim, o Modelo Cognitivo. Trocando em miúdos, assim como acontece no dia a dia, os sonhos são vistos como situações em relação às quais a pessoa tem suas percepções, emoções e comportamentos. Diante de uma situação X a pessoa tem certa percepção, em conseqüência dessa, uma emoção resulta em um dado comportamento. Desse modo o sonho é tratado como se fosse uma situação real que o paciente experienciou.
No trabalho com sonhos em uma sessão de TCC, o paciente relata seu sonho, descreve tudo o que se lembra com a maior riqueza de detalhes possível e o psicoterapeuta investiga com ele suas percepções no sonho: o que passou na sua cabeça, tanto durante o sonho, quanto quando ele o descreve.
Como o sonhador mantém suas crenças dormindo ou acordado, será possível identificar possíveis distorções cognitivas e desafiá-las, buscando uma flexibilização das mesmas.
Fora isso, investiga-se também se há semelhança entre as emoções presentes nos sonhos com o que a pessoa pensa e sente na vida real, em seu dia a dia, ou em uma situação específica. Assim pode-se verificar se existem padrões tanto de estilos de pensamento (forma de pensar), quanto de emoções e tirar aprendizados, bem como modificar o que não for funcional (positivo).
Desse modo, mesmo o trabalho com sonhos que seria mais subjetivo, torna-se mais objetivo e prático. Já que se busca aproximar o conteúdo que toca o paciente no sonho, com sua realidade no momento presente.
“Tudo o que vês é o resultado dos teus pensamentos. Não há nenhuma exceção para este fato... Como um homem pensa, assim ele percebe. Portanto, não busques mudar o mundo,mas escolhe mudar a tua mente sobre o mundo.A percepção é um resultado e não uma causa.” Um Curso em Milagres
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Real é o que eu acredito como sendo real, assim como ilusório é o que vejo como tal. Tudo em que eu acredito é real para mim, pois creio que aquilo exista. Só é possível definir o que é real quando se trata da subjetividade de cada um. O que é real para mim, não necessariamente o é para você. Não existe uma realidade única, fixa. Ela é muito mais algo subjetivo do que objetivo.
Explicando o que quero dizer com esses termos é que a realidade que você vê depende unicamente da percepção que você tem do mundo, dos outros e de si mesmo e que é determinada pelos pensamentos provindos das crenças que você tem. Sendo assim, suas crenças determinam sua realidade. Tudo o que você percebe só o é dessa maneira em função do que você acredita. Tirando as questões ligadas a fatos biológicos, como por exemplo, sentir dor ao colocar a mão sobre o fogo, todas as nossas outras percepções são influenciadas por nossos pensamentos e, portanto por nossas crenças.
Eu somente sinto ciúme (medo de que me tirem o meu ser amado), pois tenho uma crença que fundamenta isso, fazendo com que me sinta ameaçada. Sinto ansiedade (medo de algo que pode ocorrer no futuro) porque acredito que alguma coisa ruim possa acontecer. Tenho medo de ladrão, pois creio que ele possa me fazer algum mal ou ameaçar minha vida. Sendo assim, o medo somente existe e é real para nós enquanto acreditamos nele. E é tão grande, quanto o poder que damos a ele.
Não é possível entrarmos em uma discussão do que é real ou ilusório uma vez que, como disse acima, isso é algo subjetivo. Enquanto que para uma pessoa com síndrome do pânico estar em um ambiente fechado e cheio de pessoas é uma situação em que ela sente como ameaçadora de sua vida, para outra não é percebido dessa maneira. Para uma esposa o fato de o marido chegar tarde em casa, pode ser visto como ameaça para o casamento, pois para ela existe o temor de que ele estivesse com outra, e isso pode não ser sentido assim por uma outra cônjuge. Nessas situações, não é possível se dizer que o medo dessas pessoas não é real. Ele o é, é muito. A questão a ser analisada é o que gera esse medo, isso sim é passível de discussão; de se é ilusório ou real, ou em outras palavras: distorcido ou baseado em evidências (fatos).
Enquanto minha crença de que a fonte do meu medo é real, ele o será para mim. A partir do momento em que passo a questionar ou duvidar da crença que me gera o medo, ele passa a ser possivelmente ilusório, ou seja, quando penso na possibilidade de que meu marido possa ter chegado tarde, pois ficou preso no trânsito, crio outro pensamento possível (hipótese) e conseqüentemente meu medo diminui. Quando minha crença não é absoluta, ou seja, abro espaço para outras opções, há a possibilidade de se questionar o medo. Não ele em si, mas sua fonte geradora.
Pensando nisso, somos nós que alimentamos nossos medos e os tornamos tão reais e grandes quanto queremos. Digo “queremos”, pois as crenças são construções nossas. São apanhados de experiências, sensações, percepções, aprendizados, sentimentos, entre outros, que fomos selecionando e agrupando durante nossa história de vida. Escolhendo alguns pontos e negando outros, de maneira a ir montando um quebra-cabeça no qual cada peça foi minuciosamente colocada. Isso ocorre, pois temos controle sobre o que se mantém na nossa mente, ou seja, há os pensamentos automáticos que irrompem e surgem espontaneamente, sem que tenhamos controle sobre seu aparecimento. No entanto, mantê-los, nos identificarmos com eles, concordarmos com eles, acreditarmos neles, isso está sob nosso controle e é decisão e responsabilidade nossa, uma vez que se eles permanecem é porque desejamos que assim o seja. Quando aceitamos um pensamento, sem questioná-lo, pressupondo que este é um fato (e não uma hipótese) esta é uma escolha que fazemos. Por isso, em última instância, somos responsáveis por tudo o que sentimos, inclusive por nossos medos.
Como encará-los? Questionando a si mesmo, ou seja, ao que você acredita como verdade hoje, pois somente assim o que você vê como realidade poderá se modificar.
Este texto pode ser encontrado também em Via Estelar.