segunda-feira, 21 de março de 2011

Entenda os comportamentos disfuncionais e de onde eles vêm - Parte II

Na teoria do psicólogo americano Jeffrey Young são apresentados 18 esquemas iniciais desadaptativos (EIDs) considerados centrais na cognição humana (consulte tabela no final da página). Grosso modo, isso significa como sua percepção frente à realidade impede sua adaptação a ela mesma. Entenda mais sobre o conceito desses esquemas no texto anterior.

Esses esquemas se encontram inseridos em cinco domínios relacionados com necessidades emocionais não satisfeitas:

a) Domínio de desconexão e rejeição: expectativa de que as necessidades de segurança, estabilidade, cuidado, aceitação, empatia e respeito não serão satisfeitas de maneira previsível, causando a incapacidade de formar vínculos seguros e satisfatórios com outras pessoas.
Características da família de origem (onde foi criado): fria, desligada, rejeitadora, isoladora, imprevisível ou abusadora.

- Privação Emocional: expectativa do indivíduo de que seu desejo de conexão emocional não será satisfeito adequadamente; inclui-se as seguintes formas de privação:

1- privação de cuidado: ausência de atenção, afeto, carinho ou companheirismo);

2- privação de empatia: ausência de compreensão, escuta, postura aberta, comprometimento mútuo de sentimentos;

3- privação de proteção: ausência de força, direção ou orientação por parte de outros.

- Abandono/instabilidade: percepção de que os outros com quem poderia se relacionar são instáveis e indignos de confiança. Envolve a sensação de que pessoas significativas não serão capazes de continuar proporcionando apoio emocional, ligação, força ou proteção porque seriam emocionalmente instáveis e imprevisíveis (por ex. teriam acessos de raiva), não mereceriam confiança ou porque poderiam a qualquer momento abandonar ou não estarem presentes quando se precisasse delas.

- Desconfiança/abuso: convicção de que as pessoas irão usá-los para fins egoístas
(abusarão, machucarão, magoarão, humilharão, mentirão, enganarão ou manipularão ou se aproveitarão). Geralmente, envolve a percepção de que o prejuízo é intencional ou resultado de negligência injustificada ou extrema. Pode incluir a sensação de que sempre se acaba sendo enganado por outros ou “levando a pior”.

- Isolamento social/alienação: sentimento de que se está isolado do mundo, de que se é diferente, de não se adequar ou não pertencer a quaisquer grupos ou comunidades.

- Defectividade/vergonha: sentimento de que é defectivo (está sempre devendo), falho, mau, indesejado, inferior ou inválido em aspectos importantes. Logo, não seria digno de receber amor, caso se expusesse. Pode envolver hipersensibilidade à crítica, rejeição e postura acusatória; constrangimento, comparações e insegurança quando se está junto de outros, ou vergonha dos defeitos percebidos. Essas falhas/defeitos podem ser privadas (como egoísmo, impulsos de raiva, desejos sexuais inaceitáveis) ou públicas (como aparência física indesejável, inadequação social).

b) Domínio de autonomia e desempenho prejudicados: expectativa de pouca capacidade de sobreviver e funcionar de forma independente e satisfatória. Dificuldade na separação com a família de origem.
Características da família de origem: superprotetora, emaranhada, destruidora da confiança da criança; não consegue reforçar a criança a ter um desempenho competente fora da família.

- Fracasso: crenças de fracasso (fracassou ou fracassará) e de inadequação em relação
aos seus pares em conquistas acadêmicas, ocupacionais, esportivas, entre outras. Costuma envolver a crença de que se é burro, inapto, sem talento, ignorante, inferior, menos bem-sucedido, etc. do que os outros.

- Dependência/incompetência: crença de que é incapaz de exercer as responsabilidades do dia a dia de uma maneira competente, sem a ajuda dos outros (por ex: cuidar de si mesmo, resolver problemas cotidianos, exercer a capacidade de discernimento, cumprir novas tarefas, tomar decisões adequadas). Apresenta-se frequentemente como desamparo.

- Vulnerabilidade ao dano ou à doença: medo excessivo relacionado com catástrofes iminentes que cairão sobre si sem chances de impedir a ocorrência e sem capacidade para lidar com ela.

O medo se dirige a um ou mais dos seguintes:

(A) catástrofes em termos de saúde (ataque cardíaco, AIDS, etc.);

(B) catástrofes emocionais (ex: enlouquecer);

(C) catástrofes externas (queda de elevadores, ataques criminoso, desastres de avião, terremotos).

- Emaranhamento/ego subdesenvolvido: necessidade de envolvimento emocional excessivo com uma ou mais pessoas importantes em sua vida comprometendo a individuação e desenvolvimento social normal. Muitas vezes, envolve a crença de que pelo menos uma das pessoas emaranhadas não pode viver, funcionar bem ou ser feliz sem o constante apoio dos outros. Pode também incluir sentimentos de ser sufocado ou fundido com outra(s) pessoa(s) e de não ter uma identidade individual suficiente. Com freqüência, é vivenciado como sentimento de vazio e fracasso totais, de não haver direção e, em casos extremos, de questionar a própria existência.

c) Domínio de limites prejudicados: deficiência nos limites internos, carência de desenvolvimento interno em relação à reciprocidade ou autodisciplina, apresentando dificuldades de respeitar terceiros, cooperar, manter compromissos, cumprir objetivos de longo prazo, restringir impulsos e postergar gratificações em função de benefícios futuros.
Características da família de origem: permissividade, falta de direção, senso de permissividade, excesso de indulgência.

- Merecimento/arrogância/grandiosidade: crença de superioridade em relação aos outros de que é merecedor de direitos e privilégios especiais, não se sentindo submetidos às regras de reciprocidade que guiam a interação social normal. Insistência em se ter ou fazer o que se quer independente do que isso custe aos outros. Envolve o foco exagerado na superioridade (estar entre os mais bem-sucedidos, famosos, ricos) para atingir poder ou controle (e não necessariamente para obter aprovação ou atenção). Às vezes competitividade excessiva ou dominação: afirmar o próprio poder, forçar o próprio ponto de vista ou controlar o comportamento de outros segundo os próprios desejos, sem empatia ou preocupação com as necessidades ou desejos dos outros.

- Autocontrole/autodisciplina insuficientes: dificuldade ou recusa em exercer autocontrole e tolerância à frustração com relação aos próprios objetivos. Dificuldade em limitar a expressão excessiva de emoções e impulsos. Em sua forma mais leve, a pessoa apresenta ênfase exagerada na evitação de desconforto: evitando dor, conflito, confrontação e responsabilidade, às custas da realização pessoal, comprometimento ou integridade.

d) Domínio de direcionamento para o outro: foco excessivo nos desejos, sentimentos dos outros, comprometendo às suas próprias necessidades, visando obter aprovação, conexão emocional e evitar retaliação, não tendo muitas vezes consciência de sua própria raiva e preferências.
Características da família de origem: aceitação condicional (sob certas condições), onde as crianças devem suprimir aspectos importantes de si próprio e de seus desejos para obterem amor, aceitação social ou status. As vontades dos pais são mais importantes que os desejos e necessidades das crianças.

- Subjugação (ato de se submeter): excessiva submissão ao controle dos outros por sentir-se coagido e por perceber as próprias necessidades e sentimentos como não válidos ou importantes para o outro. Submetendo-se para evitar a raiva, a retaliação e o abandono; as principais formas são subjugação de necessidades (supressão das próprias preferências, decisões, desejos e opiniões) e subjugação das emoções (supressão de emoções, principalmente a raiva). Apresenta-se como obediência excessiva, combinada com hipersensibilidade a sentir-se preso. Costuma levar a aumento da raiva, manifestada em sintomas desadaptativos (por ex: comportamento passivo-agressivo, explosões de descontrole, sintomas psicossomáticos, uso excessivo de álcool ou drogas).

- Autossacrifício: cumprimento voluntário das necessidades alheias à custa da própria gratificação visando poupar os outros de sofrimento, evitar culpa de se sentir egoísta, ganhar autoestima ou manter relação com quem considera carente; com frequência resulta de sensibilidade intensa ao sofrimento de terceiros. Às vezes, leva a uma sensação de que as próprias necessidades não estão sendo adequadamente satisfeitas e ao ressentimento em relação àqueles que estão sendo cuidados.

- Busca de aprovação/reconhecimento: ênfase excessiva na obtenção de aprovação,
reconhecimento ou atenção dos outros ou no próprio enquadramento, comprometendo o desenvolvimento seguro e verdadeiro do próprio self ( o eu). A autoestima depende principalmente das reações alheias, em lugar das próprias inclinações naturais. Por vezes, inclui uma ênfase exagerada em status, aparência, aceitação social, dinheiro ou realizações como forma de obter aprovação, admiração ou atenção (não tanto em função de poder e controle). Com frequência, resulta em importantes decisões não autênticas nem satisfatórias, ou em hipersensibilidade à rejeição.

e) Domínio de supervigilância e inibição: supressão de sentimentos e impulsos espontâneos com esforços no cumprimento de regras rígidas internalizadas em relação ao próprio desempenho, às custas da autoexpressão, felicidade, relacionamentos íntimos e qualidade de vida. Ênfase excessiva no controle dos impulsos, diminuição da espontaneidade. Há uma preocupação de que as coisas irão desabar se houver falha na vigilância.
Características da família de origem: severa, exigente, punitiva, perfeccionista (escondendo emoções e evitando erros), propensão ao pessimismo e a preocupações de que as coisas não vão dar certo.

- Negativismo/pessimismo: foco generalizado, duradouro e exagerado nos aspectos negativos da vida (sofrimento, morte, perda, decepção, culpa, ressentimentos, erros, traição, problemas) em detrimento de minimização ou negligência dos aspectos positivos ou otimistas. Costuma incluir uma expectativa exagerada – uma ampla gama de situações profissionais, financeiras, interperssoais – de que algo vai acabar dando muito errado, mesmo que todas as evidências demonstrem o contrário. Envolve um medo exagerado de cometer erros que podem levar a colapso financeiro, perda, humilhação ou a se ver preso em uma situação ruim. Como exageram os resultados negativos potenciais, essas pessoas costumam se caracterizar por preocupação, vigilância, queixas ou indecisões crônicas.

- Inibição emocional: excessiva inibição da ação, sentimentos, comunicação espontânea visando evitar desaprovação alheia, sentimentos de vergonha ou de perda do controle dos próprios impulsos.
As áreas mais comuns da inibição envolvem: inibição da raiva e da agressão; inibição de impulsos positivos (por ex. alegria, afeto, excitação sexual, brincadeira); dificuldade de manifestar vulnerabilidades ou comunicar livremente seus sentimentos e necessidades; excessiva racionalidade, ao mesmo tempo em que se desconsideram emoções.

- Padrões inflexíveis/postura crítica exagerada: crença de que grande esforço deve ser empreendido na obtenção de elevados padrões internos de comportamento e desempenho para evitar críticas, o que repercute em sentimentos de pressão ou dificuldade de relaxar e em posturas críticas exageradas com relação a si e aos outros. Costuma resultar em sentimentos de pressão ou dificuldade de relaxar e em posturas criticas exageradas com relação a si mesmo e a outros. Deve envolver importante prejuízo do prazer, do relaxamento, da saúde, da autoestima, da sensação de realização ou de relacionamentos satisfatórios.
Os padrões inflexíveis geralmente se apresentam como: perfeccionismo - atenção exagerada a detalhes ou subestimação de quão bom é seu desempenho em relação à norma; regras rígidas e ideias de como as coisas “deveriam” ser em muitas áreas da vida, incluindo preceitos morais, éticos culturais e religiosos elevados, fora da realidade; preocupação com tempo e eficiência, necessidade de fazer sempre mais do que se faz.

- Caráter punitivo: convicção de que os indivíduos deveriam ser severamente punidos pelos erros que cometem, implicando em tendência a estar com raiva, ser intolerante e impaciente com as pessoas e consigo próprio quando não correspondem às suas expectativas ou padrões. Via de regra, inclui dificuldades de perdoar os próprios erros, bem como os alheios.
Domínios Esquemas iniciais desadaptativos
Desconexão e rejeição    1. Abandono/instabilidade 4. Defectividade/vergonha
   2. Desconfiança/abuso 5. Isolamento social/alienação
   3. Privação emocional
Autonomia e desempenho prejudicados    6. Dependência/incompetência 9. Fracasso
   7. Vulnerabilidade
   8. Emaranhamento/ego subdesenvolvido
Limites prejudicados     10. Merecimento/arrogo/grandiosidade
    11. Autocontrole/autodisciplina insuficientes
Orientação para o outro      12. Subjugação
     13. Autossacrifício
     14. Busca de aprovação/reconhecimento
Supervigilância e inibição   15. Negativismo/pessimismo 18. Caráter punitivo
  16. Inibição emocional
  17. Padrões inflexíveis/crítica exagerada

domingo, 27 de fevereiro de 2011

De onde vêm nossas crenças negativas e comportamentos disfuncionais?

Comportamentos distorcidos - "... são mantidos e perpetuados por toda a vida e em situações em que não necessariamente se “encaixam”. Transformam-se em padrões arraigados de pensamentos e crenças distorcidas"

Assim como em outras linhas teóricas da psicologia, a TCC acredita que muitos dos comportamentos *disfuncionais têm sua origem na infância. Mas a elaboração e manutenção dos mesmos se perpetua na vida adulta.

Por exemplo, uma criança que não recebe atenção, afeto e cuidados dos pais pode começar a desenvolver uma maneira disfuncional de perceber o mundo, pensando, sentindo e agindo dentro dessa mesma maneira. Pode desenvolver um esquema de **privação emocional e quando adulta manter crenças exageradas de que não está sendo cuidada e compreendida pelas outras pessoas. Em função disso pode sentir-se muito sozinha e criar uma grande dependência em relação aos outros.

O que são esquemas?

São temas amplos e persistentes, relacionados a si mesmo, ao relacionamento com os outros e com a visão de mundo. Desenvolvem-se como resultado de experiências disfuncionais contínuas com os pais, irmãos, familiares e amigos e vão ganhando forma conforme a criança busca compreender essas experiências e evitar um sofrimento adicional. Os esquemas são, portanto, tentativas da criança de lidar da melhor maneira possível para ela com experiências doloridas de seu presente.

Esquemas foram definidos como: “elementos organizados de reações e experiências passadas que formam um corpo de conhecimento relativamente coeso e persistente, capaz de guiar a percepção e as avaliações subsequentes” (Segal, 1988, p. 147).

Para o psiquiatra americano Aaron Beck criador da TCC, “um esquema é uma estrutura (cognitiva) que filtra, codifica e avalia os estímulos que impingem sobre o organismo...”

O que os torna disfuncionais, é que são mantidos e perpetuados por toda a vida e em situações em que não necessariamente se “encaixam”. Transformam-se em padrões arraigados de pensamentos e crenças distorcidas. Em função de se autoperpetuarem durante a vida, tornam-se extremamente resistentes a mudanças e também por desenvolverem-se cedo (na infância), tornam-se familiares e confortáveis dificultando imensamente a modificação dos mesmos. Geralmente são centrados no autoconceito que a pessoa tem de si mesma e sobre sua concepção dos outros e do ambiente.

Um exemplo é um adulto com esquema de incompetência que mesmo recebendo repetidamente feedbacks de seu ótimo desempenho, continua a acreditar que deixa a desejar em sua atuação.

É criada uma forma de ser e enxergar as relações e o mundo, e essa estrutura (o esquema) é que define como as experiências futuras serão processadas e internalizadas.

Uma analogia é desenvolvermos uma ou algumas crenças como se fossem "caixas" as quais definem o que podemos “pegar do mundo”. Enfim, esse conteúdo que será “encaixado” são as crenças que temos.

O psicólogo americano Jeffrey Young desenvolveu 18 esquemas com suas descrições cognitivas, comportamentais e as experiências geradoras de cada um e uma terapia específica para tratá-los. Nos dois textos subsequentes, tratarei desses tópicos.

*Disfuncional (ou desadaptativo): o termo não possui uma tradução exata. Numa linguagem coloquial disfuncional é algo negativo, ruim para o sujeito.

** Privação emocional - ex: ser privado de afeto ou se sentir como se assim fosse.

Leia este texto também em Via Estelar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sofrimento deve ser visto como uma oportunidade de aprender e mudar


Sofrimento - "É como se fosse uma chapa quente embaixo de nossos pés descalços na qual podemos ficar pulando até que esfrie ou então busquemos um outro lugar para ficar"

Momentos de mudança são vistos por muitas pessoas como desconfortáveis. É muito mais fácil e cômodo permanecer na zona de conforto ao invés de buscar novas soluções, novas maneiras de agir e de pensar ao lidar com pessoas e situações.

No entanto, às vezes não há opção. Por exemplo, mudanças de ambiente como mudar de casa, de emprego, de país, de estado civil, exigem adaptação; assim como por exemplo ao se descobrir uma traição ou que o companheiro não está mais satisfeito com seu modo de agir.
Quando se entende qualquer situação, como essa ou outra qualquer, como uma oportunidade de aprendizado e crescimento, sem se “vitimizar” no sofrimento, o processo e o resultado podem ser muito diferentes.

Richard Nixon, ex-presidente dos Estados Unidos, disse: “Em uma crise, esteja consciente do perigo, mas identifique a oportunidade.” Esse pode ser o grande diferencial entre pessoas que entram em desespero em determinadas situações (e em alguns casos se deprimem) e as que mesmo em dificuldade, conseguem passar pelos eventos.

O segredo

O segredo está na interpretação que se faz da situação e não na situação em si. Muitas pessoas são bem-sucedidas, pois enxergam uma oportunidade em uma dificuldade e a partir dela se desenvolvem.

Se utopicamente tivéssemos o domínio e soubéssemos de tudo, provavelmente as situações não nos trariam sofrimento, se isto ocorre é porque temos algo a aprender com elas. Ou seja, é uma oportunidade dada, apontando algum déficit que precisa ser desenvolvido.
Num outro momento, se essa mesma situação se repetir, o sofrimento não ocorrerá, desde que a lição tenha sido aprendida.

Vejam um simples exemplo: Crianças pequenas têm muita dificuldade em compartilhar seus brinquedos. Quando são solicitadas a isso, sofrem e choram em função do suplício de ter de dividir seus brinquedos com outra criança. Caso essa habilidade seja aprendida na infância, na adolescência ou na fase adulta, não haverá problemas (nem sofrimento) em compartilhar. Caso contrário, enquanto essa lição não for introjetada, essa pessoa continuará a sofrer toda vez que esse ponto for tocado.

Visto dessa maneira, o sofrimento é um indicativo de que há algo errado e de que não se está lidando com a situação da melhor maneira possível.

Sendo assim, a dor nos impele a mudar. É como se fosse uma chapa quente embaixo de nossos pés descalços na qual podemos ficar pulando até esfrie ou então busquemos um outro lugar para ficar.

Essa escolha é nossa, mas a oportunidade de não ficarmos parados, ou seja, a pressão para sairmos dessa zona de conforto aparece em muitos momentos da vida. Cabe a cada um de nós sabermos o quanto de calor suporta nossos pés.


Este texto pode ser encontrado também em Via Estelar.

Descubra se sua percepção sobre um fato é real ou ilusória


"... uma ideia é posta à prova frente a evidências concretas que a realidade tem a oferecer. É levantada quais são as evidências (fatos) que são a favor dessa ideia e quais são contra"
Um dos pressupostos da Terapia Cognitiva é de que os transtornos psicológicos provêm de distorções da realidade. Todos nós distorcemos a realidade de alguma maneira.
No entanto, quando há um transtorno psicológico isso é feito em maior escala e/ou a pessoa acredita com mais veemência nessa distorção e por isso sofre mais.

As distorções cognitivas podem ser vistas em texto anterior (clique aqui e leia).

Como a terapia cognitiva lida com as distorções cognitivas?
A terapia cognitiva possui algumas técnicas para auxiliar os pacientes sobre como lidar com essas distorções. A mais utilizada, e que também permeia outras técnicas, é questioná-las e confrontá-las com a realidade.

Sendo assim, quando o psicoterapeuta percebe que seu paciente está cometendo uma distorção cognitiva ele, com auxílio do paciente (ou seja, a dupla terapêutica), refletem juntos sobre qual distorção está sendo feita naquele momento.

Como na terapia cognitiva acredita-se que nossas ideias não sejam verdades absolutas, mas sim hipóteses, pode-se questionar sua validade. Essa distorção cognitiva (hipótese) é confrontada com fatos.

O que ocorre nesse momento é que uma ideia é posta à prova frente a evidências concretas que a realidade tem a oferecer. É levantada quais são as evidências (fatos) que são a favor dessa idéia e quais são contra. Com base nisso, é possível avaliar o quanto determinada ideia está pautada na realidade e o quanto está distorcida.

Um exemplo já citado nesta coluna é: Uma paciente pode ter a “certeza” de que seu marido a está traindo. Primeiramente é trabalhado o fato de que esse pensamento (“Ele está me traindo”) é uma hipótese e não um fato. A partir daí, começa-se a questionar essa hipótese elencando quais são as evidências que a apoiam e quais são contra (quase como um trabalho de detetive). Tendo esse levantamento, a ideia é confrontada com as evidências contrárias e é visto se essa hipótese é válida ou se existem outras possibilidades, talvez até mais viáveis. Caso haja outras possibilidades, pode-se também averiguar quais são as evidências que são a favor e contra.

Com essa metodologia, geralmente se atinge um enfraquecimento dos pensamentos distorcidos e abre-se a possibilidade de levar em conta outras hipóteses que não a primeira cogitada. Isso traz um alívio de sofrimento ao paciente e a percepção de que sua ideias não definem a realidade, mas influenciam suas emoções.

Ao questionar pensamentos que levam a sentimentos desagradáveis, é possível aliviar esse mal-estar e até dar respostas mais eficientes e funcionais.

A partir dessa explanação percebe-se então que é de essencial importância que o paciente seja ativo no processo e seja instruído a respeito de algumas expressões e seus significados, assim como de conteúdos dentro da TCC.

É por isso que aos poucos o paciente vai se tornando seu próprio terapeuta, pois passa a conhecer o processo e as técnicas, podendo utilizá-las mesmo após o término da terapia.

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15 formas de pensar que te levam a distorcer a realidade


Temos pensamentos a quase todo momento. Muitos destes, não temos controle e podem ser chamados de automáticos. Eles vêm e da mesma maneira vão, sem darmos conta deles. Simplesmente, “aparecem em nossas mentes”, sem ser fruto da vontade ou reflexão e, mesmo que não saibamos de sua existência (pois usualmente são breves, fugazes), influenciam nosso estado de humor e podem causar ou influenciar certas emoções. Por não termos “consciência” de sua existência, geralmente não são questionados e são aceitos como verdadeiros.

Alguns desses pensamentos automáticos podem ser gerados através de distorções cognitivas, que são maneiras errôneas que as pessoas têm de interpretar e entender o que ocorrem com elas e/ou nas situações vividas.

Embora alguns pensamentos automáticos sejam verdadeiros, muitos são falsos ou apenas possuem alguma parcela de verdade.

Os 15 erros típicos de pensamento são:

1º) Catastrofização

Prever o futuro negativamente, ou seja, acreditando que o pior irá ocorrer sem considerar a possibilidade de outros desfechos. Além disso, acredita-se que a situação será intolerável, insuportável, de maneira a não se conseguir lidar com ela.

Exemplos: “Terminar esse relacionamento será a morte para mim”. “Se eu não for bem nessa apresentação, será o fim de minha carreira”.

2º) Raciocínio Emocional

Pensa-se que algo deve ser verdade porque “sente-se”, ou seja: “Sinto, logo é”. Em realidade, acredita-se de maneira tão convincente que acaba-se por ignorar ou desconsiderar evidências contrárias, deixando que esses sentimentos guiem a interpretação da realidade, presumindo que as reações emocionais refletem uma situação verdadeira.

Exemplos: “Eu sinto que as pessoas não gostam de mim”. “Sinto-me desesperado, portanto a situação deve ser desesperadora”.

3º) Polarização

Também chamada de pensamento tudo-ou-nada ou dicotômico. Ou seja, ver a situação como possível somente em duas categorias, mutuamente exclusivas.

Exemplos: “Se eu não fizer sempre tudo certo, sou então um fracassado”. “Ninguém gosta de mim”.

4º) Abstração Seletiva (também denominada de filtro mental ou visão em túnel)

Presta-se atenção a apenas num detalhe de uma situação muito mais ampla, deixando de lado outros aspectos relevantes. Em vez de considerar o quadro geral, observa-se apenas o aspecto negativo dessa, realçando-o - e por isso ignorando outros aspectos positivos.

Exemplos: “Por ter obtido uma nota baixa em minha avaliação de desempenho - que também continha diversas notas altas- isso significa que estou fazendo um trabalho deplorável”. “Meu marido não gosta de mim. Ele é crítico e rude -sendo que também á carinhoso e atencioso”.

5º) Adivinhação

Previsão do futuro tendo expectativas negativas que são estabelecidas como fatos. Antecipação de problemas que talvez nem venham a existir.

Exemplos: “Meu projeto não será aprovado”. “Não me divertirei nessa viagem”. “Dará tudo errado”.

6º) Leitura Mental

Presume-se que se sabe o que os outros estão pensando, sem ter evidências para isso e desconsiderando outras possibilidades possíveis. Exemplos: “Ele acha que não fui adequada”. “Ela está entediada de conversar comigo”.

8º) Rotulação

Coloca-se um rótulo global e fixo sobre si mesmo, sobre os outros ou sobre uma situação, reduzindo o todo a um comportamento ou aspecto. Exemplos: “Eu sou um incompetente”. “Os homens não prestam”.

9º) Desqualificação do positivo

Desvalorização de experiências, atos ou qualidades positivos que conflitam com a percepção ou crença que se tem, colocando-os como triviais ou que “não contam”.

Exemplos: “Fui bem naquela prova, mas isso não significa que eu seja inteligente; eu apenas tive sorte”. “As pessoas são legais comigo, não por gostarem ou se importarem, mas por ser esta a atitude correta de se ter”.

10º) Minimização e maximização

Na avaliação de si mesmo, de outra pessoa ou de uma situação, o negativo é maximizado, enquanto minimiza-se o positivo. Exemplos: “Receber uma nota baixa prova quão incompetente eu sou”. “Ter um bom resultado no trabalho não quer dizer que sou bom, todos tem de fazer isso”.

11º) Personalização

Assume-se toda a responsabilidade por situações negativas, sem considerar outras explicações e desconsiderando o envolvimento das outras pessoas e fatores.

Exemplos: “O relacionamento terminou por minha culpa, não consegui mantê-lo”. “Meu chefe estava bravo, devo ter feito algo errado”.

12º) Hipergeneralização

Tira-se uma conclusão geral a respeito de um evento ou característica específica, ampliando-a para todas as situações.

Exemplos: “Não sou bom em fazer amigos”. “Nunca vou conseguir uma namorada”.

13º) Imperativos (ou declarações do tipo “eu deveria” e “eu devo”)

Interpreta-se as situações sob a ideia sobre como você ou os outros deveriam comportar-se, superestimando quão ruim será caso essas expectativas não sejam preenchidas. Desconsidera-se como as coisas de fato são e obriga-se que sejam diferentes, enxergando como elas deveriam ser.

Exemplos: “Eu deveria acertar sempre”. “Eu devo ser sempre paciente e educado”. “Eu não deveria me incomodar com os outros”.

14º) Vitimização

Percebe-se como injustiçado ou não compreendido. Atribui-se a outra pessoa ou a uma situação a fonte de seus sentimentos negativos, não responsabilizando por seus comportamentos ou sentimentos.

Exemplos: “Não terminei o trabalho, pois ela não me ajudou”. “Ninguém sabe pelo que estou passando”.

15º) Questionalização (E se?)

Focar-se naquilo que poderia ter sido, mas não foi. Culpar-se por escolhas do passado e questionar-se por escolhas futuras.

Exemplos: “E se eu tivesse aceitado aquele trabalho?”. “Se eu tivesse sido mais tolerante, nada disso teria acontecido”. “E se essa mudança não der certo?”

Diante dessas informações é possível perceber qual ou quais distorções cognitivas habitualmente se faz no dia a dia e, a partir do momento em que se cria a consciência sobre elas, pode-se optar em não ficar à mercê das mesmas, questionando e confrontando esses pensamentos distorcidos com base em evidências reais e criando respostas mais funcionais e adaptativas. Em outras palavras, é possível tomar as rédeas de sua vida se você quiser




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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Minha ansiedade é normal ou excessiva? Será que me preocupo demais?


"O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é basicamente a preocupação ou ansiedade excessiva frente a motivos injustificáveis ou desproporcionais ao nível de ansiedade observado. Ou seja, a resposta do indivíduo é frequentemente exacerbada diante de estímulos que não gerariam a mesma reação em outras pessoas"

A ansiedade é quase inerente ao modo de vida moderno. Só de vivermos nos tempos atuais ou numa grande cidade já preenchemos os quesitos para ter ansiedade, como por exemplo: alta competitividade, cobrança de desempenho, consumismo desenfreado, entre outros.

Ficar ansioso ou preocupado é algo normal e esperado. Isso auxilia a pessoa adaptar-se ao ambiente e à sociedade. No entanto, estar sempre ansioso e preocupado no seu cotidiano ou com atividades rotineiras pode se tornar patológico.

O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é basicamente a preocupação ou ansiedade excessiva frente a motivos injustificáveis ou desproporcionais ao nível de ansiedade observado. Ou seja, a resposta do indivíduo é frequentemente exacerbada diante de estímulos que não gerariam a mesma reação em outras pessoas.

Pessoas com TAG interpretam as situações como ameaçadoras ou por enxergarem-nas com os piores desfechos possíveis ou por se perceberem sem as habilidades necessárias para lidar com elas. Mantêm-se assim constantemente preocupadas com as diversas atividades do seu dia a dia e encontram muita dificuldade em relaxar ou livrar-se das preocupações.

Para que o diagnóstico de ansiedade generalizada seja feito é preciso que outros transtornos de ansiedade tais como o pânico e a fobia social tenham sido excluídos. É necessário que essa ansiedade excessiva perdure por mais de seis meses continuamente, sendo imprescindível ser feita a diferenciação da ansiedade normal.

Uma das maneiras de diferenciar a ansiedade generalizada da ansiedade normal é através do tempo de duração dos sintomas. A ansiedade normal se restringe a uma determinada situação ou estímulo, e mesmo que o evento causador da ansiedade não seja resolvido, extinto ou modificado, a pessoa tende a adaptar-se e tolerar melhor a tensão diminuindo o grau de desconforto com o tempo – essa capacidade de adaptação é chamada de habituação.

Sendo assim caso uma pessoa mantenha-se apreensiva, nervosa e tensa por um período superior a seis meses, mesmo tendo motivos para isso, começa a ter critérios para o diagnóstico do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Os sintomas necessários para o diagnóstico de TAG são:

1. Dificuldade de concentração e frequentes esquecimentos (“brancos”);
2. Irritabilidade (estar com os “nervos à flor da pele”);
3. Dificuldade para relaxar;
4. Cansar-se com facilidade;
5. Dificuldade para adormecer, manter o sono ou ter sono insatisfatório;
6.Tensão muscular (dores musculares).

Há também diversas vezes outros sintomas gastrointestinais associados como: colites, gastrites, diarreias, etc, mas que não são requisitos para o diagnóstico de TAG.

Por fim, um critério presente em todos os transtornos mentais é o prejuízo no funcionamento pessoal ou marcante sofrimento. Não podemos considerar os sintomas como suficientes para dar o diagnóstico caso o paciente não tenha seu desempenho pessoal, social e familiar afetados.

No site do AMBAN (ambulatório de Ansiedade), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, órgão especializado em transtornos de ansiedade é possível encontrar mais informações à respeito do TAG, assim como um pequeno teste que pode dar-lhe uma ideia dos critérios de enquadramento utilizados para esse diagnóstico:


É importante salientar que, como o estado de ansiedade perturba a visão que a pessoa tem a respeito de si mesma e a respeito do que acontece no ambiente é necessário que esse diagnóstico seja sempre feito por um especialista.

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